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Por Gopala, http://harekrishna.org.br, 21 de janeiro de 2009
Buscando na web algumas referências sobre o Natal, encontrei esta reflexão da “Hare Krishna” (Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna). Por considerá-la interessante, resolvi inseri-la na íntegra. Como já manifestei algumas vezes, não tenho preferência por uma religião, costumo absorver sempre o que cada uma tem de essencial naquilo que comunga com a minha filosofia e propósitos de vida.
Saibamos ser sempre receptivos a qualquer ensinamento que possa nos elevar espiritualmente. O que importa é a colheita seletiva do que enriquece, que muda conscientemente a mente e a atitude de cada um de nós, transformando-nos em pessoas a cada dia melhores.
Leiam então o texto de Gopala:
”Abordamos um artigo de nossa autoria postado originalmente no Fórum
Krishna-Katha, como resposta ao tema das Festas de Final de Ano trazido por
Prabhu Adi-Karuna.
Há poucos eventos que causam sentimentos tão contraditórios quanto as festas de
final de ano. Enquanto alguns adoram e não veem a hora
de comemorar o Natal e o Ano Novo, outros detestam essas ocasiões a ponto de
ficarem deprimidos e frustrados.
O ponto é que, quer gostemos, quer não, aparentemente sempre houve (e
provavelmente sempre haverá) uma festividade nessa época do ano, e seria
favorável à nossa consciência de Krishna que soubéssemos entender esse fato
adequadamente.
Vou abordar o assunto sob três pontos de vista diferentes: estações do ano,
psicologia e sociabilidade humanas e a natureza. Peço suas bençãos para que
esta apresentação seja adequada e os satisfaça, uma vez que não houve
oportunidade para uma pesquisa mais apurada, e muita coisa vai "de
memória" mesmo. Hare Krishna!
A) Estações do Ano:
Prabhu Adi-Karuna comentou:
"A árvore vem do carvalho sagrado de Odin e dos pinheiros que os celtas
iluminavam ao abandonar o corpo no inverno...; a data, do deus persa Mitra e
oficializada na metade do século 4o...; a estrela, do
solstício de inverno ...; os doces, presentes, "papai Noel" (advindo
de cultos xamânicos siberianos ...), juntamente com as guirlandas da Estônia,
Lituânia e Letônia; já as renas eram para os siberianos o que o búfalo
representa para os nativos americanos e a vaca para os indianos."
Bem, embora muito disso já seja do conhecimento da maioria dos devotos e das
pessoas em geral, o ponto focal aqui é que houve, ao longo da história,
diversos tipos de festas e comemorações, pouco antes, pouco depois ou na data
do solstício de inverno. (Aqui cabe um parênteses: estamos no hemisfério sul e,
para nós, nessa época, ocorre o solstício de verão. Mas o fato é que grande
parte das terras e população mundial está no Hemisfério Norte, sujeita às
variações climáticas de lá).
Diversos historiadores atribuem essas festividades no Hemisfério Norte às
condições econômicas favoráveis trazidas pelo fim do outono, época das últimas
colheitas antes dos rigores do inverno. Com os paióis e armazéns lotados, fazer
uma grande festa se tornava mais fácil.
Num ambiente predominantemente rural, as pessoas não gostam muito de sair no
frio, na chuva ou na neve. Mas o clima, no final do outono e início de inverno,
ainda está ameno o suficiente para facilitar os deslocamentos das pessoas,
tornando a possibilidade de festejar os resultados do karma (ação fruitiva)
muito mais tentadora, como veremos no próximo item.
B) Psicologia e Sociabilidade Humanas
Vimos no item anterior que as facilidades para festejar eram muito grandes:
paióis lotados e clima ameno. Isso por si só já era um convite irresistível à
festividade. Mas podemos também contar com um fator psicológico a mais:
i) A estação do inverno traria austeridades maiores, tais como a gradual
escassez dos alimentos e a perda do seu sabor natural, devido ao envelhecimento
e deterioração (mesmo considerando-se os grãos e passas). Isso causava um peso
psicológico maior no sentido de "desfrutar logo" dos resultados das
colheitas, enquanto estavam frescas e mais saborosas. Quem já fez (ou mesmo
tentou fazer) jejum conhece o peso e força da "fome pscológica",
aquela que surge antes mesmo de a fome física se manifestar.
ii) Como comentado anteriormente, o frio dificultava os deslocamentos. Ser
apanhado no meio do caminho por uma nevasca poderia representar risco de morte
para quem estivesse indo ver parentes e amigos em vilas ou cidades vizinhas. E
o "simples" "acampar na estrada" se tornava muito mais
difícil e austero. Nesse contexto, o desejo de encontrar com pessoas queridas,
que provavelmente não seriam vistas por vários meses, era uma inclinação
natural da população.
Para regular toda essa pressão psicológica em relação ao "gozo dos
sentidos" em festejos populares, principalmente no solstício de inverno,
encontramos nas mais diversas sociedades, em todas as eras, diversas regras e
regulações relacionadas a como festejar, porque festejar, como se comportar nessas
ocasiões (etiqueta), a quem prestar as homenagens pelos bons resultados obtidos
para aquele ciclo anual etc. É o que chamamos na cultura védica de dharma (no
caso, dharma específico para essa circunstância festiva anual).
Podemos ver esse tema abordado de forma genérica e conceitual no Bhagavad-gita,
quando Krishna fala dos semideuses, do dever de devolver para eles parte do que
é obtido pelo esforço humano, através de sacrifícios (sacro ofício - atividades
sagradas), e como, afinal de contas, todos os resultados são outorgados por
Ele, Krishna. E como os devotos, sabendo de tudo isso, prestam suas homenagens
a Ele, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses. Aí entramos na outra
parte da religião, a chamada yoga, que abordaremos mais profundamente no
próximo item.
C) Natureza
Vimos nos itens anteriores que sempre houve motivos físicos e psicológicos para
fazer comemorações no solstício de inverno. Porém, poder-se-ia argumentar que
muitos desses motivos já não existem mais ou, pelo menos, já não exercem tanta
influência nas pessoas. Afinal, agora buscamos comida nos supermercados: numa
economia globalizada, não dependemos mais, tanto, das condições climáticas. E
também nossos meios de transporte atuais, muito mais eficientes, rápidos e
confortáveis, nos permitem viajar praticamente em qualquer clima. Sendo assim,
manter costumes como estes, de festejar no solstício de inverno, seria apenas
um tipo de inércia cultural que tenderia a desaparecer com o tempo, desde que
não fosse artificialmente alimentada por interesses econômicos escusos.
Porém, o que a história nos mostra é justamente o contrário: cada cultura
trouxe suas inovações e facilidades, diminuindo a importância das condições
climáticas e, mesmo assim, essas
comemorações não desapareceram. Houve inclusive tentativas explícitas de acabar
com as comemorações ou transferi-las para outras ocasiões, porém sem resultados
duradouros, como vemos adiante, e é confirmado por outros historiadores:
Também citando o Prabhu Adi-Karuna:
...aceitamos em nossas mentes que realmente entramos em um ano novo, mas isso
não tem mais de 500 anos de oficialização... (em 1582) para abafar as
comemorações das culturas pagãs...
Então, o que efetivamente acontece nessa data, ao longo dos milênios, nas mais
diversas circunstâncias, que leva as pessoas a comemorar e festejar? Uma
resposta mais efetiva pode estar na natureza, tema tratado por Krishna no
Capítulo 14 do Bhagavad-gita. Porém, para entender como a natureza pode afetar
toda uma população mundial nessa época do ano, precisamos nos aprofundar um
pouco mais no tema.
[...]
Antes que pensem que
precisaríamos ser místicos astrólogos védicos para entender o que se passa, já
esclarecemos: do mesmo modo que não é preciso ser mecânico de automóveis para
dirigir um carro (basta saber dirigir), também não precisamos conhecer o Surya
Siddhanta. Basta entender, com a ajuda, por exemplo, do Calendário Vaishnava,
que:
1- Estamos mais sentimentais quando entra dezembro porque estamos em Vrscika Sankranti
(equivalente a Escorpião - fortemente emocional) nessa época (sim, há uma
diferença entre as formas védica e ocidental de marcar essas influências - o
que explica o porquê da ocidental nunca estar certa);
2- Quando chegam as festas de Natal e Ano Novo, estamos mais idealistas
(desejamos que tudo saia perfeito) porque antes já entramos em Dhanus Sankranti
(equivalente a Sagitário - o idealista e sacerdote nato);
3- Fazemos nosso "planejamento anual" em janeiro por entrarmos em Makara Sankranti
(equivalente a Capricórnio - o metódico workaholic que não consegue ficar parado
- nem mesmo nas férias);
4- Em seguida esquecemos todo esse planejamento e caimos na "gandaia"
(especialmente aqui, no Brasil) em fevereiro, por entramos em Kumbha Sankranti
(equivalente a Aquário - o sociável);
5- Começamos efetivamente nosso ano em março, não somente porque passou o
carnaval (no hemisfério sul, mais especificamente no Brasil) ou acabou o
inverno (no hemisfério norte se inicia a primavera), mas principalmente porque
entramos em Mina
Sankranti (equivalente a Peixes - a mais transcendente das
influências) e, portanto, estamos mais inclinados a aceitar o fim de algo e o
início de outro algo (transcender também tem a ver com transitar, passar de um
para outro ponto).
Análises equivalentes podem ser feitas para cada um dos outros meses, mas com
essa pequena demonstração já dá para entender melhor porque as festas de Natal
e Ano Novo, como se apresentam atualmente, nos causam tanto desconforto,
frustração e rejeição:
i) Natal agora tem a ver com ganhar presentes, mas nessa época do ano estamos
mais inclinados a ideais do que a coisas. Daí sentirmos que nenhum presente que
ganhamos nos traz a felicidade plena.
ii) Ano Novo tem a ver com o fim de um ciclo temporal e o início de outro (mais
adequado para a época de Mina Sankranti). Como podemos pensar no fim do ciclo
quando deveríamos estar vivendo o seu auge, o ponto mais alto do ano, próprio
do idealismo de Dhanus Sankranti? Daí a tentativa de fazer dessas festas de
Natal e Ano Novo uma demostração do que alcançamos ao longo do ano em termos de
membros familiares e bens materiais. Porém, a ideia de "fim", de
"finalização", acaba "assombrando" a festividade.
Por outro lado, a comemoração do Natal como o aparecimento do Fundador-Acharya
do Cristianismo parece combinar bem com o idealismo próprio da época e aparenta
ter sido uma boa utilização de tempo, lugar e circunstâncias para o serviço
devocional a Deus (Bhakti-Yoga) na cultura cristã, substituindo outras
manisfestações festivas de bhakti (prestação de serviço com amor e devoção) a
outros seres e representações parciais do Senhor (semideuses e sakti-avesha
avatares) que existiram, nessa mesma época do ano, em outras culturas,
anteriores ao Cristianismo.
Nossas tentativas de krishnaizar esses eventos, tais como festas de Natal e Ano
Novo conscientes de Krishna, a Maratona de Prabhupada, ou retiros espirituais
aproveitando os feriados prolongados dessas ocasiões, também deveriam levar
sempre em conta as influências dos modos materiais próprias da época,
"tirando um bom proveito de um mau negócio" e "fluindo
naturalmente" dentro do contexto psico-social-astral idealista, local e
universal.
D) Conclusão
O Senhor Krishna explica no Bhagavad-gita que as almas condicionadas pensam ser
as executoras das ações que, na verdade, são levadas a cabo pela Natureza
Material. Saber o quanto estamos fortemente condicionados e amarrados às
influências dos três modos da Natureza Material pode, a princípio, assustar um
pouco. Mas entender que existem processos nos âmbitos de dharma e yoga para
transcender esses modos e agir na plataforma pura da consciência de Krishna
pode nos consolar e nos dar a certeza de que um dia (e por que não hoje?)
poderemos aceitar tudo o que for favorável ao serviço ao Senhor e rejeitar tudo
o que for desfavorável, sempre nos lembrando de Krishna e nunca nos esquecendo
dEle.
Embora haja uma forte tendência, desde os tempos mais remotos, de se fazerem
comemorações na época do solstício de inverno, essa tendência não é
necessariamente prejudicial ao serviço devocional. Pode-se aproveitar as
facilidades da época para incrementar esse serviço ao Senhor, tirando partido
das circunstâncias climáticas e psico-sociais do momento.
Meditemos nisso.”
___________________
Ilustração : www.harekrishna.com
Sindicação
17/03/2010 @ 20:55:07
por christina amorim
E ae fera, gostei desse negócio ...
16/03/2010 @ 21:44:56
por Lineu
olá a perda , essa palavra ...
15/03/2010 @ 14:40:29
por chrilzo
muito legal adoro musicas pra tudo... http://chrilzo.bloggeiro.com/Primeiro-blog-b1/Nao-deixe-sua-pele-descascar-b1-p2.htm acabei ...
15/03/2010 @ 14:14:49
por chrilzo
Amigo Tom, interessante o enfoque.... apesar ...
03/03/2010 @ 21:20:22
por Mário